
«A memória é o local de registo dos acontecimentos, dos ensinamentos, da aprendizagem, de tudo o que vai ocorrendo ao longo da nossa vida, sendo certo que esse registo faz-se em locais especiais do cérebro».
A definição é da Dr.ª Helena Coelho, neurologista, que nos fala do processo natural de falência de memória à medida que a idade avança e de como pode ser preocupante quando ultrapassa limites que vão interferir com o desempenho das funções profissionais e laborais. Esta situação é também de importância pelas repercussões que vai ter na estrutura familiar do doente.
Helena Coelho começa por fazer a distinção entre dois tipos de memória: a imediata, que diz respeito aos factos recentes, e a remota, que diz respeito aos acontecimentos passados.
«Normalmente faz grande confusão às pessoas que a perda de memória se comece a dar exactamente para os factos recentes, porque daria a ideia de que esses estavam mais acessíveis, mas isto é um mistério da fisiologia humana, do funcionamento do nosso cérebro em que as memórias mais antigas, os conhecimentos e as vivências ficam registadas por mais tempo e são mais facilmente evocadas», frisa a neurologista.
A memória imediata tem outra localização no cérebro, outra fisiologia diferente da memória antiga, e é a primeira a ser atingida quando os processos degenerativos do sistema nervoso começam a atacar as estruturas onde ela está localizada.
De facto, a partir dos 50 anos de idade, as pessoas começam a notar que estão a perder a sua capacidade de reter – e são sobretudo os nomes de pessoas o que mais se esquece -, mas não é preocupante, pois faz parte do processo de envelhecimento. É um fenómeno fisiológico, assim como a perda progressiva da capacidade auditiva ou da visão. Essa perda de memória permite uma vida normal, com qualidade e uma boa integração social e profissional.
Estas perdas de memórias podem, porém, ser minimizadas através do exercício mental, isto é, da leitura e da escrita.
De acordo com a neurologista, é muito comum o idoso deixar estas actividades com facilidade: «Quando a pessoa se reforma deixa quase de escrever e de saber como se escreve. Já não sabe se é com dois “s” ou com “ç”, etc., e depois acaba por ter vergonha de deixar um recado cheio de erros e deixa mesmo de escrever.»
Fazer jogos, palavras cruzadas, charadas, telefonar ou ir à rua comprar o jornal são tudo formas de contrariar esse fenómeno.
Fazer jogos, palavras cruzadas, charadas, telefonar ou ir à rua comprar o jornal são tudo formas de contrariar esse fenómeno.
«Só em último caso é que a pessoa deve, por exemplo, deixar de ir ao banco, de assinar o seu cheque porque quando isso acontece já não se volta atrás, abdica-se para sempre dessa função», diz Helena Coelho, lembrando um aspecto muito contra-indicado:
«A não ser em casos esporádicos, as pré--reformas deveriam ser evitadas, porque não ajudam em nada a boa saúde mental, acabando por levar ao isolamento. A pessoa diz sempre que vai fazer alguma coisa de útil mas a verdade é que acaba sempre por não se ocupar.»
Outro aspecto que pode ter uma grande influência nas capacidades intelectuais da pessoa, que vai avançando na idade e que está ao alcance de todos, é a prevenção dos factores de risco vascular. Isto porque as doenças cardiovasculares podem igualmente causar uma demência.
Família deve apoiar e ser apoiada
O grande problema coloca-se quando o idoso tem uma perda de memória que já não corresponde a envelhecimento, mas sim ao anúncio de alguma doença degenerativa. A vigilância médica pode ajudar a distinguir porque a fronteira entre um caso e outro é bastante ténue.
Para Helena Coelho, «é obrigatório fazer um despiste das causas capazes de provocar um quadro demencial através de uma avaliação, que consiste numa entrevista médica ao doente, no depoimento dos familiares, em análises laboratoriais e numa bateria de testes neuropsicológicos, se o médico achar necessário».
Depois da avaliação ainda é necessário perceber se há alguma patologia que possa imitar um pouco a demência, como os estados de depressão e ansiedade. Conforme exemplifica a neurologista, «uma pessoa que está muito deprimida pode ter comportamentos que imitam muito bem um demente e nós temos de fazer aí o primeiro diagnóstico diferencial. Ou pode ter uma grande ansiedade que a bloqueia psicologicamente».
A forma como o idoso encara a perda de memória depende muito da sua personalidade, da inserção social e do apoio familiar.
A especialista chama a atenção para o papel e o comportamento da família nas situações de doença degenerativa:
«É sempre muito prejudicial fazer notar ao idoso que se está a esquecer constantemente porque só vai deprimi-lo e esta atitude é, muitas vezes, a mais comum no início do quadro.»
O aparecimento de uma doença degenerativa num dos membros acaba por se tornar numa doença de toda a família. No início acha que vai aguentar a evolução mas, a dada altura, toda a família está um pouco destabilizada, porque o doente vai atravessar períodos de agitação, de insónia resistente aos medicamentos, crises de agessividade e irritabilidade, variações de humor. E é neste sentido que a neurologista salienta que «nesta altura é vital todo o apoio à família e acompanhantes».
«Para a doença degenerativa (por exemplo a doença de Alzeihmer) existem hoje alguns medicamentos que podem atrasar a evolução», diz Helena Coelho.
E acrescenta: «Penso que a sociedade em que vivemos deve reorganizar-se e reestruturar-se, de forma a haver um lugar para estas pessoas, pois é previsível que nas próximas décadas o número de idosos aumente bastante».
Deviam, assim, haver locais preparados para colmatar todas as necessidades que a idade e a doença vão trazer porque actualmente os que existem são insuficientes no nosso País.
«As pessoas estão vivas enquanto respiram, por isso merecem que pensemos nelas», conclui a neurologista.
Fonte: Medicina & Saúde
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